Brasil na corrida da IA: entre hospedar dados e produzir inteligência

A IA tornou-se irreversível e o Brasil precisa decidir se será apenas polo de dados ou produtor de tecnologia. Com EBIA, PL 2.338/2023 e um plano de R$ 23 bilhões, o país atrai investimentos de nuvem, expande supercomputação e testa modelos em português, mas o avanço depende de regulação, talentos e política industrial.

Brasil na corrida da IA: entre hospedar dados e produzir inteligência

Brasil na corrida da IA: entre hospedar dados e produzir inteligência

A inteligência artificial se consolidou como uma tendência irreversível e o Brasil vive uma encruzilhada estratégica: limitar-se a hospedar dados e infraestrutura ou avançar para produzir tecnologia, modelos e propriedade intelectual próprios. Enquanto conflitos e incertezas seguem no cenário global, a IA mantém forte tração nos mercados e pressiona países a definirem sua posição na nova economia digital.

Contexto: onde o Brasil está e quem puxa a agenda

Desde 2021, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA), instituída por portaria do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), orienta princípios e eixos para pesquisa, inovação, qualificação e uso ético da tecnologia. Em 10 de dezembro de 2024, o Senado aprovou o PL 2.338/2023, marco regulatório da IA, e o texto passou a tramitar na Câmara dos Deputados ao longo de 2025. Paralelamente, o governo detalhou o Plano Brasileiro de IA (2024–2028), que prevê até R$ 23 bilhões em quatro anos e a aquisição de um supercomputador de altíssimo desempenho para acelerar pesquisa e aplicações.

Dados e evolução: infraestrutura, investimentos e projetos

O país atraiu grandes aportes em nuvem e IA. Em 2024, a Microsoft anunciou R$ 14,7 bilhões em três anos para ampliar data centers e capacitar milhões de brasileiros. A AWS projetou R$ 10,1 bilhões até 2034 para expansão de infraestrutura. Em 2025, o Google Cloud reforçou a região de São Paulo com TPUs de sexta geração para acelerar cargas de IA e passou a ofertar serviços do Gemini em ambiente soberano na Nuvem de Governo do Serpro, reduzindo latência e mantendo dados sensíveis no país.

Na supercomputação científica, o LNCC atualizou o Santos Dumont para 20 petaflops, com investimento de R$ 100 milhões, posicionando o equipamento entre os mais potentes da região para pesquisa em saúde, clima e IA. Também ganhou tração o programa SoberanIA, parceria do MCTI com o Piauí e universidades, dedicado a modelos de linguagem em português e aplicações públicas, com novos recursos federais direcionados à iniciativa.

O ambiente energético reforça a atratividade do país para data centers: em 2024, 88,2% da eletricidade brasileira veio de fontes renováveis, favorecendo metas de descarbonização de grandes operadores de nuvem e projetos de “IA verde”.

Mercados aquecidos e sinais para o Brasil

Globalmente, empresas expostas à IA lideraram ciclos de valorização desde 2024. Fabricantes de chips e provedores de nuvem bateram marcas históricas, com uma líder do setor alcançando US$ 4 trilhões em valor de mercado no intradia em julho de 2025. A perspectiva de investimentos recordes em centros de dados segue firme, com projeções de forte crescimento do capex mundial de data centers até o fim da década, impulsionado por GPUs e aceleradores de IA.

Impactos e escolhas: talentos, indústria e serviços públicos

A janela de oportunidade traz ganhos e riscos. A Brasscom estima demanda acumulada de 797 mil profissionais de TIC entre 2021 e 2025 e projetou para 2025 a criação de 30 mil a 147 mil empregos formais no setor, indicando que formar e requalificar pessoas em larga escala segue crítico. Programas públicos e privados de capacitação — incluindo metas de treinamento de milhões de pessoas — procuram reduzir o déficit de habilidades, com ênfase em IA, dados e cibersegurança.

Para a indústria e o agronegócio, a IA já entrega ganhos de produtividade, previsão e automação; na saúde e na educação, promete acelerar diagnósticos, personalizar aprendizado e ampliar acesso. No setor público, a combinação de nuvem soberana, supercomputação e modelos em português abre caminho para serviços mais eficientes e inclusivos, desde que acompanhados de governança, privacidade e avaliação de riscos.

Próximos passos: de polo de dados a produtor de inteligência

O Brasil precisará consolidar três frentes para sair da condição de mero hospedeiro: (1) concluir o marco legal na Câmara com regras claras de responsabilidade, transparência e direitos; (2) acelerar o Plano Brasileiro de IA, garantindo computação de alto desempenho, dados de qualidade e fomento à pesquisa aplicada; (3) fechar políticas industriais que estimulem cadeias locais — de semicondutores a software — e ampliem a formação de talentos. O país tem energia limpa, escala e um mercado dinâmico; transformar essas vantagens em propriedade intelectual e soluções exportáveis é o passo que decide seu lugar na corrida global da IA.

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