Como a Inteligência Artificial molda novos contornos ao cenário criminal

Modelos generativos e automação ampliaram a sofisticação e a escala do crime digital, de videoconferências deepfake a voz clonada. Em 2024, perdas reportadas nos EUA chegaram a US$ 16,6 bi, com fraudes de investimento acima de US$ 6,5 bi. A resposta combina novas regras — como marcos do Ato de IA na Europa e a Convenção da ONU contra o Cibercrime — e práticas de verificação mais rígidas em empresas e serviços públicos.

Como a Inteligência Artificial molda novos contornos ao cenário criminal

IA redefine o cenário criminal com golpes mais sofisticados, maior escala e novas frentes de regulação

A popularização de modelos generativos e ferramentas de automação levou o crime digital a um novo patamar: golpes com deepfakes, voz clonada e agentes autônomos ampliam a escala e a precisão das fraudes, enquanto autoridades correm para atualizar a legislação e os métodos de investigação em 2026.

Contexto: onde, quando e quem está envolvido

Nos últimos dois anos, casos de engenharia social potencializada por IA se espalharam por diferentes países, com criminosos explorando videoconferências falsificadas, chatbots e robôs de voz para enganar empresas e consumidores. Órgãos de segurança relatam que o uso de modelos de linguagem e ferramentas de síntese de mídia tornou golpes mais críveis e difíceis de detectar, afetando desde pequenas companhias até corporações multinacionais e vítimas vulneráveis.

Dados e evolução da ameaça

Indicadores recentes mostram a dimensão do problema. Em 2024, as perdas reportadas por crimes cibernéticos nos Estados Unidos atingiram cerca de US$ 16,6 bilhões, com fraudes de investimento — em grande parte associadas a criptoativos — somando mais de US$ 6,5 bilhões. Pessoas com 60 anos ou mais responderam por quase US$ 5 bilhões em perdas, refletindo a pressão sobre grupos mais expostos a golpes sofisticados.

Casos emblemáticos incluem o uso de videoconferências deepfake para ordenar transferências milionárias, em que executivos, contadores e fornecedores foram “substituídos” por réplicas digitais convincentes. Em paralelo, esquemas de phishing evoluíram para mensagens multilíngues e personalizadas com apoio de IA, e quadrilhas passaram a combinar automação com técnicas tradicionais, ampliando o raio de ação em fraudes bancárias, extorsões com material forjado e golpes de suporte técnico.

Impactos em pessoas, setores e regiões

Para consumidores, o risco mais visível é a dificuldade de diferenciar interações legítimas de falsificações de alta qualidade — de uma reunião por vídeo até um telefonema de “suporte” com voz clonada. Empresas enfrentam novas superfícies de ataque: rotinas financeiras, validação de identidade, atendimento e cadeia de suprimentos. Setores financeiro, varejista e de tecnologia experimentam maior exposição, enquanto governos e serviços públicos lidam com tentativas de fraude em escala, vazamentos e sabotagens digitais.

O efeito jurídico também é relevante: cresce a necessidade de perícias em mídia sintética, validação de cadeia de custódia de evidências digitais e revisão de práticas de reconhecimento facial e de voz. Paralelamente, especialistas alertam para vieses e falhas de transparência em sistemas de apoio à decisão usados por órgãos de investigação, o que exige auditorias e salvaguardas.

Próximos passos e desdobramentos regulatórios

No plano internacional, a Convenção da ONU contra o Cibercrime, adotada no fim de 2024, abriu caminho para cooperação mais rápida em provas digitais e assistência entre países, entrando em vigor após número mínimo de ratificações. Na Europa, o Ato de IA iniciou a fase de proibições a aplicações consideradas inaceitáveis em fevereiro de 2025 e amplia exigências em 2026, com sandboxes regulatórios e regras para sistemas de alto risco.

Para 2026, a tendência é de consolidação de três frentes: autenticação reforçada em processos críticos (validações fora de banda e múltiplos fatores), detecção e marca d’água de conteúdo sintético nos fluxos de comunicação e compras, e cooperação transnacional para rastrear fundos ilícitos. A efetividade dessas medidas — somada à educação do usuário e ao endurecimento de controles internos nas empresas — será decisiva para conter a nova geração de crimes impulsionados por IA.

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